O cavalo sem sede

O cavalo sem sede - Célestin Freinet

O jovem da cidade queria prestar um serviço à fazenda onde o hospedavam, e então pensou:

-Antes de levar o cavalo para o campo, vou dar-lhe de beber. Ganho tempo e ficaremos sossegados o dia todo.

O cavalo recusa-se a ir para o bebedouro e só tem olhos e desejos para o campo de alfafa!

-Mas o que é isso? Agora é o cavalo quem manda? Desde quando são os animais que mandam? Venha beber, estou dizendo!

O novato puxa a rédea e depois bate no cavalo com força. Finalmente! O animal avança. Está à beira do bebedouro.

-Talvez esteja com medo. E se eu o acariciasse? Olhe, a água é limpa, molhe o focinho, veja só!

O homem mergulha bruscamente o focinho do cavalo na água do bebedouro.

-Agora você vai beber!

O animal funga e sopra, mas não bebe. Aparece um camponês irônico:

-Ah! Você acha que é assim que se lida com um cavalo? Ele é menos estúpido que os homens, sabe? Ele não está com sede.

-Pode obrigá-lo e ele não beberá. Talvez ele finja estar bebendo, mas vai cuspir em você a água que está bebendo. Trabalho perdido, meu velho!

-Mas então, como se faz?

-Bem se vê que você não é camponês! A esta hora da manhã o cavalo não tem sede; ele precisa é de alfafa fresca. Deixe-o comer até ele se fartar, depois ele vai ter sede e você vai vê-lo galopar para o bebedouro, nem vai esperar você dar licença. Aconselho que você deixe ele ir ao campo, e depois que ele beber você poderá puxar a rédea!

É assim que nos enganamos, quando pretendemos mudar a ordem das coisas e obrigar a beber quem não tem sede.


Por Célestin Freinet, pedagogo anarquista francês.
Título original "A história do cavalo que não está com sede".
Do livro "Pedagogia do bom senso".
O cavalo sem sede O cavalo sem sede Revisado by Trilhando Autonomia em 10:52:00 Avaliação: 5
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